sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Indústria Cultural

A existência de meios de comunicação capazes de colocar uma mensagem ao alcance de grande número de indivíduos não basta para caracterizar a existência de uma Indústria Cultural e de uma cultura de massa.

A Indústria Cultural é fruto da sociedade industrializada, de tipo capitalista liberal. Mais especificamente, porém, a indústria cultural concretiza-se apenas numa segunda fase dessa sociedade, a que pode ser descrita como a do capitalismo de organização (ou monopolista) ou, ainda, como sendo a sociedade dita de consumo.
Considerada ainda como condição para a existência dessa Indústria uma oposição entre a cultura dita superior e a de massa, apesar dos equívocos envolvidos nessa divisão. Admitida essa divisão, pode-se falar na existência de uma cultura superior, outra média(midcult) e uma terceira, de massa (masscult, inferior). A segunda distingue-se da terceira, basicamente, por sua pretensão de apresentar produtos que se querem superiores mas que são, de fato, formas desbastadas daqueles. Ao passo que a masscult se contenta com o fornecer produtos sem qualquer pretensão ou álibi cultural.

É possível ainda, estabelecer-se uma oposição entre a cultura popular, entendida como soma dos valores ancestrais de um povo, e a cultura dita pop, outra designação de cultura de massa. Os mesmos excessos de valorização da cultura superior, diante da de massa, também são encontrados na defesa da popular diante da pop.
Com seus produtos, a Indústria Cultural pratica o reforço das normas sociais, repetidas até a exaustão sem discussão. Em conseqüência, uma outra função: a de promover o conformismo funcional. Ela fabrica seus produtos cuja finalidade é a de serem trocados por moeda; promove a deturpação e a degradação do gosto popular; simplifica ao máximo seus produtos, a obter uma atitude sempre passiva do consumidor; assume uma atitude paternalista, dirigindo o consumidor ao invés de colocar-se a sua disposição.
Ao lado da defesa da Indústria Cultural está a tese de que não é fator de alienação na medida em que sua própria dinâmica interior a leva a produções que acabam por beneficiar o desenvolvimento do homem. A favor desta idéia lembra-se, por exemplo que as crianças hoje dominam muito mais cedo a linguagem graças a veículos como a TV. O acúmulo de informação acaba por transformar-se em formação dos indivíduos, isto é, a quantidade provocando alterações na qualidade. Ou que a Indústria Cultural acaba por unificar não apenas as nacionalidades mas também as próprias massas.
Não se sabe bem o que é massa. Ora é o povo, excluindo-se a classe dominante. Ora são todos. Ou um conjunto amorfo de indivíduos sem vontade. Pode surgir como um aglomerado heterogêneo de indivíduos, ou como entidade absolutamente homogênea para outros. O resultado é que o termo “massa” acaba sendo utilizado quase sempre conotativamente (isto é, com um segundo sentido) quando deveria sê-lo denotativamente com um sentido fixado, normalizado.Na verdade esta é uma questão um tanto bizantina: essa cultura de ou para ou sobre a massa existe para quem se der ao trabalho de abrir os olhos.
Havendo preconceito de classe diante das reais dificuldades metodológicas de delimitação do conceito de massa, talvez seja melhor falar-se numa cultura industrial ou industrializada, particularmente quando se pretende atribuir a essa entidade um valor negativo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Introduzindo o Super Notícias

Pela primeira vez na história, Minas Gerais tem um jornal com a maior circulação do país. Segundo o IVC de agosto, o Super Notícia, com vendas médias diárias de 300.322 exemplares, superou a Folha de S. Paulo (299.010), O Globo (276.733), o Extra (238.937) e O Estado de S. Paulo (238.752). Por trás deste número temos um verdadeiro universo a ser estudado. Primeiro, o fato de estar em primeiro lugar no cenário nacional não é indício da melhoria de qualidade do jornalismo mineiro.

O Super não pode ser comparado com seus concorrentes, pois custa 25 centavos, enquanto o Extra, também dirigido às classes C e D, é vendido em Belo Horizonte a um real. Também não se pode compará-lo com o Estado de Minas (EM), jornal que por mais de 40 anos liderou a vendagem de jornais em Minas Gerais e está hoje em terceiro lugar (73.232 exemplares vendidos diariamente, em média, em agosto), atrás de outro jornal também dos Diários Associados, o Aqui, também vendido a 25 centavos. Além do preço, o conteúdo desses dois jornais baratos é diferente de uma Folha de S. Paulo e até de um Estado de Minas. Normalmente, o Super e o Aqui trazem mais publicidade do que notícias.
Além disso, o Super é um fenômeno isolado numa imprensa regional que, sob todos os aspectos, se encontra em franca decadência. O novo recordista de vendas tem duas secretárias de redação – as mesmas dos jornais O Tempo e Pampulha, do mesmo grupo empresarial – e conta com apenas quatro redatores. Os profissionais do Super foram contratados para condensar, em tamanho, notícias produzidas pelos repórteres de O Tempo e de agências. Seu concorrente direto, o Aqui, segue o mesmo esquema: preço de 25 centavos, uma editora, um editor de arte e sete subeditores. Ele também usa as notícias do Estado de Minas e de outros veículos dos Associados.
A decadência dos jornais mineiros pode ser constatada nos próprios números do Instituto Verificador de Circulação. O Super representa 56,3% das vendas, entre todos os 27 jornais mineiros auditados pelo IVC, cuja circulação total pouco ultrapassa os 533 mil exemplares. O Estado de Minas foi ultrapassado pelo Aqui, que havia sido lançado para combater o Super, mas acabou tirando mercado do veterano Diário da Tarde, do mesmo grupo. Depois de 77 anos de vida, quase sempre como o segundo mais vendido jornal mineiro, o DT fechou as portas em julho passado. Ao que tudo indica, seus leitores – motoristas de táxi, salões de barbeiro, policiais – haviam migrado para os jornais de 25 centavos. O último DT custava um real.
Em 2005, o jornal Super Notícia se viu ameaçado por um jornal semelhante, que tinha foco no mesmo mercado e preço de venda 50% mais baixo do que o seu. Para não perder o espaço, já consolidado, a equipe de marketing do jornal entrou em ação e adotou estratégias pertinentes: reduziu o preço de venda ao mesmo valor de seu concorrente, investiu no sistema de distribuição, adotando um formato de venda direta em sinais de trânsito, além da tradicional venda em bancas de jornal e criou um sistema de promoções em que associava a compra de exemplares diários a ganhos de diversos produtos como aparelhos eletrônicos, utensílios domésticos, entre outros.
O Super traz sempre mulheres bonitas, muitas vezes seminuas, na primeira página e ainda uma generosa oferta de brindes. Todo o conteúdo do jornal impresso foi transcrito para a Web e pode ser lido no endereço www.supernoticia.com.br. O leitor conta com espaço para fazer comentários em cada notícia ou coluna, imprimir ou enviar por e-mail. Pode também aumentar ou diminuir o tamanho da letra e buscar notícias de edições anteriores.
O jornal é publicado pela Sempre Editora, que edita também O Tempo e o semanário de distribuição gratuita Pampulha (116 mil exemplares). O proprietário é o empresário italiano Vittorio Medioli, ex-deputado federal pelo PSDB e pelo Partido Verde, que resolveu investir em jornal para se vingar dos Associados, que há alguns anos publicaram reportagens vinculando-o à Máfia. Com O Tempo, ele esperava desbancar a liderança do Estado de Minas. O Tempo não avançou, mas o Super, desde seu lançamento, em 1º de maio de 2002, vem registrando recordes sucessivos de venda. Nos últimos 12 meses, até agosto de 2007, o crescimento foi de 100% .
Na opinião do dono, Vittorio Medioli, o Super "ganhou simpatia de gente que nunca teve a possibilidade de ler um jornal e de muitos outros que procuravam uma notícia fácil de se ler. Certamente não é o mais completo, não satisfaz os intelectuais – nem é para eles, mas representa uma janela sobre o mundo para quem sempre a encontrou fechada".
Ninguém precisa esperar notícias com críticas no Super. Nem há espaço no jornal para reportagens de fôlego investigativo. Padre Marcelo Rossi, cronista do Super, escreve suas crônicas em 14 linhas. O próprio Medioli tem enxugado seus textos, conformando-o ao perfil dos leitores do fenômeno, definidos como oriundos das classes C e D. Só agora esse leitor está se habituando a gastar parte de seu salário para comprar jornal.